Em autopeças e distribuição, o estoque costuma representar a maior parte do capital da empresa. E é comum encontrar as duas doenças convivendo no mesmo depósito: prateleira cheia de item que não gira e falta justamente da peça que o cliente pediu hoje.

Isso não é contradição. É sintoma de mix decidido no feeling.

Os dois custos que puxam em direções opostas

Todo controle de estoque equilibra duas perdas:

  • Capital imobilizado. Cada real em peça parada é um real que não está no caixa. Some a isso espaço, seguro, obsolescência e a peça que sai de linha na prateleira.
  • Ruptura. Não ter o item quando o cliente pede. Em autopeças, a ruptura dói mais que na média do varejo: o cliente está com o carro parado e vai comprar no concorrente hoje — e, com frequência, volta a comprar lá.

Comprar demais resolve a segunda e agrava a primeira. O objetivo nunca é “ter mais estoque”, é ter o estoque certo.

Os quatro números que decidem compra

Não é preciso um painel com trinta indicadores. Quatro resolvem, se forem revisados toda semana.

1. Curva ABC — mas por margem, não por faturamento

A classificação clássica separa os itens por representatividade: os A respondem pela maior parte do resultado, os C pela cauda longa.

O detalhe que muda o jogo: classifique por margem de contribuição, não por faturamento. É comum um item de giro alto e margem baixa ocupar a curva A por faturamento, enquanto a peça que realmente paga as contas aparece como B.

Regra prática para o dia a dia:

  • Itens A: não podem faltar. Estoque de segurança e reposição frequente.
  • Itens B: reposição programada, com revisão mensal.
  • Itens C: compra sob demanda ou por encomenda. Aqui mora a maior parte do capital parado.

2. Giro — quantas vezes o estoque se renova

Giro é o custo das mercadorias vendidas no período dividido pelo estoque médio. Não existe número mágico universal, mas existe uma leitura simples: compare o giro de cada curva com ele mesmo, mês a mês. Item A com giro caindo é alerta de mix errado ou de preço fora de mercado.

3. Cobertura — quantos dias de venda você tem na prateleira

Cobertura é o estoque atual dividido pela venda média diária. É o número mais útil na hora de comprar, porque fala a língua do comprador: “temos 9 dias de venda deste item, e o fornecedor entrega em 12”.

Com cobertura na mão, a compra deixa de ser opinião:

  • cobertura abaixo do prazo de entrega = risco de ruptura, compre;
  • cobertura muito acima do prazo = capital parado, segure.

4. Ruptura — o número que quase ninguém mede

É a métrica mais negligenciada porque venda perdida não aparece em relatório de vendas. Ela não aconteceu.

Duas formas de medir sem sistema complexo:

  • registrar consulta de peça que terminou sem venda (o balconista marca);
  • medir a frequência de itens da curva A com saldo zero no início do dia.

Se você medir só uma coisa nova neste trimestre, meça ruptura nos itens A. É o indicador que mais rápido se converte em dinheiro.

Multiplicadores: aplicação, similar e procedência

Em autopeças há três complicadores que a distribuição geral não tem:

Aplicação. A mesma peça serve a vários modelos e anos. Sem catálogo de aplicação amarrado ao cadastro, o balconista depende da memória — e a memória sai de férias, adoece e pede demissão.

Similaridade. Ter o equivalente de outra marca disponível evita perder a venda. Mas só funciona se a similaridade estiver cadastrada e aparecer na tela no momento da consulta, não no relatório do fim do mês.

Procedência e lote. Genuína, original, paralela: preço, margem e garantia diferentes. Misturar isso no mesmo código destrói a análise de margem e complica a garantia.

Inventário: pare de fazer uma vez por ano

O inventário anual, com a loja fechada e todo mundo contando no sábado, tem três defeitos: é caro, é cansativo e produz um número que já está desatualizado na segunda-feira.

A alternativa é contagem cíclica:

  1. Divida o estoque pelas curvas.
  2. Conte os itens A com frequência alta — semanal ou quinzenal. São poucos itens e muito valor.
  3. Conte os B mensalmente e os C uma ou duas vezes por ano.
  4. Conte sempre o mesmo endereço no mesmo dia da semana, para virar rotina e não evento.

Com isso, a divergência é descoberta perto do momento em que aconteceu, quando ainda é possível saber a causa — e não seis meses depois.

Vale lembrar do outro lado do inventário: a valorização. Contagem correta com valorização errada produz um número de estoque que não bate com a contabilidade. Defina com clareza se o seu inventário é valorizado a custo ou a preço de venda, e mantenha o critério estável entre períodos.

Como o InfoKaw apoia essa rotina

No InfoKaw ERP Híbrido, o estoque é tratado junto do faturamento e da compra, e não como um módulo à parte:

  • saldo por filial, com cada movimento sabendo a que filial pertence — sem isso, o consolidado engana;
  • consulta imediata no balcão e no aplicativo do vendedor, com o mesmo saldo;
  • inventário com critério de valorização definido, a custo ou pela tabela de preço, de forma consistente;
  • histórico de compra e venda por item, base para curva, giro e cobertura;
  • pendências e reservas visíveis, para que a peça prometida não seja vendida duas vezes.

Uma rotina semanal que cabe no seu tempo

Para fechar, o ritual mínimo — 30 minutos por semana, sempre no mesmo dia:

  1. Liste os itens A com cobertura abaixo do prazo de entrega. Compre.
  2. Liste os itens com cobertura acima de 60 dias. Segure, promova ou devolva ao fornecedor.
  3. Olhe as rupturas registradas na semana. Alguma virou padrão?
  4. Confira as contagens cíclicas do período e investigue as divergências acima do seu limite de tolerância.

Não é sofisticado. É constante — e é justamente a constância que separa quem controla estoque de quem apenas o observa.

Quer ver esses quatro números calculados com os dados da sua empresa? A gente monta junto na demonstração.